Mais de 180.000 pessoas seguem este blog. Verifique nosso contador:

Seja um seguidor deste blog (preencha com seu e-mail)

O diagnóstico psicopedagógico e as modalidades de aprendizagem





Você já parou pra pensar de que forma você aprende?

Algumas pessoas aprendem melhor lendo, outras assistindo, outras fazendo, enfim, cada um de nós apresenta uma forma particular para aprender. Isso significa que cada um de nós tem sua modalidade de aprendizagem individual, que oferece uma maneira própria de aproximar-se do que precisamos aprender. A modalidade de aprendizagem é construída desde o nascimento do indivíduo, através da qual ele enfrenta com angústia as situações de aprender e não aprender.

O objeto de aprendizagem/conhecimento, faz parte de um conjunto de "coisas" que estamos dispostos a aprender, pode ser um conteúdo escolar, dirigir, andar de bicicleta, cozinhar e muito mais. Muitos pacientes, chegam ao consultório psicopedagógico por motivos de dificuldades para aprender, com queixas de hiperatividade, dislexia, déficit de atenção etc. No entanto, nem todos tem, realmente, estes diagnósticos, pois as modalidades de aprendizagem de alguns destes pacientes é confundida com outros tipos de problemas de aprendizagem e comportamento.

Todo profissional de psicopedagogia, realiza o procedimento de diagnóstico que pode durar de 07 a 10 sessões. Assim que obtiver toda a análise dos testes realizados durante este processo, o profissional em reunião com os pais e até possivelmente com a escola, entrega o seu laudo psicopedagógico baseado na modalidade de aprendizagem apresentada pelo paciente, na sequencia é explicado o prognóstico e assim, se dá inicio a intervenção psicopedagógica. A evolução do paciente, bem como o tempo de tratamento, depende da causa e do tipo de problema diagnosticado no processo de avaliação. 

A maioria dos educadores em nosso país, assim como a maioria das nossas escolas tem seus projetos educacionais baseados na epistemologia genética de Jean Piaget, que refere-se as fases do desenvolvimento infantil relacionado ao nível cognitivo em cada fase da vida. A Psicopedagogia volta seu olhar para o modo como o sujeito aprende, portanto, aprofunda o estudo do processo de adaptação formulado por Piaget. Podemos dizer que a adaptação é o equilíbrio entre a assimilação e a acomodação do objeto de aprendizagem, ou seja, assimilação é o processo de adaptação pelo qual os elementos do meio são alterados para serem incorporados pelo sujeito e acomodação consiste em adaptar-se para que ocorra a internalização do objeto transformado. Por isso, o psicopedagogo é o profissional mais indicado para diagnosticar e intervir nas dificuldades escolares e também em outras fases da vida, sempre referindo-se a questão de como o sujeito aprende. 

O conceito de Modalidade de Aprendizagem, foi dado por Alicia Fernandez (1991), e segundo Sara Pain (1986), as modalidades de aprendizagem do indivíduo, por sua vez, dependem das modalidades de inteligência. Pain considera que os referidos movimentos piagetianos, quando passam por vínculos negativos, desenvolvem uma hiper e/ou hipoacomodação, ou uma hiper e/ou hipoassimilação, que construirão, no sujeito, modalidades de aprendizagem ou inteligência patológica. 

O trabalho do psicopedagogo é justamente intervir nestas modalidades patológicas de aprendizagem com um planejamento terapêutico e não didático, ou seja, o espaço transicional da terapia psicopedagógica é de estímulos que possam desenvolver habilidades e potencializar as estruturas cognitivas para aquilo que já se aprendeu. O psicopedagogo pode construir junto com seu paciente prontidão para adquirir os conhecimentos específicos, pode inclusive, alfabetizar e criar condições para aprendizagem da matemática e outras disciplinas. No entanto, o trabalho psicopedagógico não pode e não deve ser confundido com o trabalho de um professor de reforço escolar. Tanto o psicopedagogo quanto o professor particular são importantes no auxilio educacional daqueles que tem dificuldades escolares, porém o psicopedagogo trabalha mais profundamente auxiliando o individuo a sair de um estado patológico para um estado saudável de aprendizagem humana.

O psicopedagogo deverá considerar que é sempre importante realizar a anamnese com os pais e se possível uma reunião na escola para conhecer professores e coordenação. Os resultados com a intervenção psicopedagógica não é algo mágico, é necessário o esforço de todos os envolvidos, além de muita paciência e total dedicação é necessário confiança no trabalho que esta sendo desenvolvido, por isso a comunicação entre todos é a chave para o sucesso do tratamento. Além disso, o processo ensino-aprendizagem é sempre um caminho de via dupla. As modalidades de aprendizagem que interferem neste processo dizem respeito não exclusivamente ao aprendente (paciente), mas também ao ensinante (professores, pais, psicopedagogo). Isso nos leva a refletir na nossa própria modalidade de aprendizagem, uma vez que ela poderá construir uma modalidade de ensinamento geradora de outras modalidades de aprendizagem patológicas, ou seja, a nossa modalidade em particular pode estar contribuindo para as dificuldades dos nossos filhos, alunos, pacientes... Reflita!

Muitas vezes, as modalidades podem ser confundidas com transtornos e distúrbios, mas na maioria dos casos ela pode estar sozinha. Neste caso, a intervenção é mais simples e rápida. No entanto, também, pode estar associada a uma causa com comprometimento neurobiológico, como por exemplo, autismo, TDAH e demais síndromes, ou algum distúrbio, como por exemplo a dislexia entre outros. Neste caso, é de extrema importância que o diagnóstico seja realizado por um profissional de neuropsicopedagogia e um médico neurologista ou psiquiatra especializado no transtorno apontado nos testes neuropsicopedagógicos. 

Resumidamente, vou explicar sobre alguns aspectos encontrados nas modalidades patológicas de aprendizagem. 

Hipoassimilação 

Pobreza de contato com o objeto de aprendizagem/conhecimento, esquemas de objetos empobrecidos. Incapacidade  de coordenar estes esquemas, déficit lúdico e criativo,  prejuízo  da função  antecipatória,  da imaginação  e  da  criação. Só aprende o que é de seu interesse.

Hiperassimilação 

Precocidade na internalização dos esquemas representativos, predomínio do lúdico e da fantasia, subjetivação excessiva. Desrealização do pensamento, resistência aos limites, dificuldades em assimilar regras, dificuldade para resignar-se. 

Hipoacomodação 

Não tem respeito ao ritmo, tempo da criança não obedece à necessidade de repetição de uma experiência, reduzido contato com o objeto, é mais lento que outras crianças para entender ou reproduzir determinada tarefa. Déficit na representação simbólica, dificuldade na internalização das imagens, problemas na aquisição da linguagem, falta de estimulação, abandono daquilo que não se aprende.
     
Hiperacomodação 

Superestimação da imitação, reduzido contato com a subjetividade, falta de iniciativa, obediência cega às normas, submissão, não dispõe de suas experiências anteriores. Superestimulação da imitação e falta de iniciativa. 

A partir deste esquema sobre as modalidades de inteligência, o sujeito constrói sua não-aprendizagem, da seguinte forma: 
      
Hipoassimilação/Hiperacomodação 

Alunos “bonzinhos”, mas não colocam significados; tem problemas de interpretação de textos, questões, problemas e também nos comandos verbalizados; muitos são confundidos com autistas leves ou asperger, disléxicos ou TDAH; imitação estereotipada. Dificuldades no desenvolvimento dos movimentos globais e específicos. Dificuldades nas atividades motoras e físicas com o corpo. Lentidão para escrever o que está lendo. Pode apresentar dificuldades com cálculos. Insegurança e medo.

Hiperassimilação/Hipoacomodação 

Problemas de aprendizagem com estrutura psicótica. Problemas na compreensão do que vê e ouve. Super assimila determinadas situações, mas nem sempre o assimilado condiz com o real. Problemas de memória de curto, médio e longo prazo. 


Hipoassimilação/Hipoacomodação 

Não reproduz e não fantasia, não tem um ritmo satisfatório para a idade. Inibição cognitiva, problemas psicomotores e linguísticos. 

Hiperassimilação/Hiperacomodação   

Assimilam e acomodam apenas o que for de seu interesse. A indisciplina predomina. Tem um perfil desafiador. Pode ser confundido com o TOD – Transtorno Opositivo Desafiador - Distúrbio infantil caracterizado pelo comportamento desafiador e desobediente em relação às figuras de autoridade. Esta sempre metido em encrenca. Inventam situações e aumentam a história.


Enfim, espero ter colaborado com algumas de suas dúvidas. Se você se interessou sobre o assunto ou quer entender melhor as dificuldades do seu filho ou aluno, entre em contato e agende uma sessão de orientação. Para profissionais da psicopedagogia que necessitam de auxilio para diagnóstico e intervenção adequada, realizo supervisão nos seus atendimentos. 


Prof. Dra. Regiane Souza Neves - Atua há 26 anos na área da educação onde foi professora, coordenadora pedagógica e diretora, sendo que nesta última função permaneceu por 15 anos como diretora na educação básica e está há 7 anos como diretora do CEADEH Centro de Estudos Avançados em Desenvolvimento Educacional e Humano (escola de formação continuada para educadores). Também atua há 11 anos em clínica como neuropsicopedagoga, neuropsicologa, psicopedagoga, psicomotricista e psicanalista, onde realiza diagnósticos para transtornos do neurodesenvolvimento como TEA, TDAH, TOD entre outros. Há 20 anos atua em estudos e desenvolvimento de políticas públicas.