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A prática de mindfulness e as modificações no cérebro

 


Muita gente acredita que meditar é esforçar-se para deixar a “mente vazia”, totalmente sem pensamentos, o que é praticamente impossível. Na verdade, na meditação procura-se dirigir e manter o foco da atenção consciente em um objeto, que pode ser interno – como pensamentos, emoções e estados corporais – ou externo, como estímulos sonoros ou visuais. Ao mesmo tempo, é importante manter o estado de alerta (não sonolência) e o relaxamento corporal. O objeto da atenção pode ser variado, mas é muito frequente que ele seja a própria respiração. A atenção mantida na respiração traz o fluxo da consciência para o momento presente e dificulta a divagação mental, essa tendência natural que tem a nossa mente de devanear, lembrando-se ou fazendo planejamentos todo o tempo em que não estamos engajados em uma tarefa que exige esforço intelectual. A divagação mental é o principal obstáculo a ser contornado por quem está empenhado em meditar.

Muitos pesquisadores têm se interessado pelo estudo da meditação, principalmente nas duas últimas décadas, e conseguido demonstrar que ela produz modificações fisiológicas que se refletem na psicologia da cognição e no processamento emocional, constituindo um exemplo eloquente das influências recíprocas entre o corpo e a mente. Aqui é importante deixar claro que o que chamamos de mente – como o nosso fluxo de consciência – são processos que decorrem do funcionamento do cérebro. Não pode existir uma mente sem um cérebro em funcionamento; contudo, a atividade mental pode, por sua vez, modificar o próprio cérebro, numa interação bidirecional que só agora começamos a compreender de forma mais adequada.

Técnicas avançadas para a pesquisa em neurociência, como a ressonância magnética funcional, têm mostrado que várias estruturas cerebrais são modificadas pela prática da meditação. O córtex pré-frontal, a região cortical situada na parte mais anterior do cérebro, é uma delas. Outras regiões afetadas são, por exemplo, o cíngulo anterior, a ínsula e a amígdala cerebral. Geralmente, a meditação promove um aumento da espessura cortical, indicando que houve um acréscimo de prolongamentos das células nervosas e nas conexões sinápticas dessas regiões. Ocorrem também alterações nas vias que ligam algumas dessas estruturas a outros centros nervosos. Tudo isso modifica o funcionamento cerebral: algumas funções são facilitadas, enquanto outras são inibidas. Em outras palavras, o cérebro que medita se torna diferente na sua maneira de interagir com os estímulos, sejam eles internos ou ambientais.

A prática de mindfulness envolve treinar a atenção voluntária, portanto é de esperar que ocorra alteração na capacidade atencional da pessoa que medita. E isso é precisamente o que ocorre. O esforço em focar a atenção promove modificações nos circuitos que a sustentam e no córtex do cíngulo anterior, o que aumenta a habilidade de permanecer consciente do momento atual: a capacidade de estar realmente presente, e não perdido em divagações. Muitas pesquisas têm mostrado que a atenção executiva, que nos permite manter a concentração, inibindo estímulos e comportamentos distraidores, torna-se mais eficiente naqueles que meditam. Trata-se de uma forma de aprendizagem que ocorre por meio da neuroplasticidade, a capacidade que o cérebro tem de reorganizar-se constantemente. O efeito benéfico sobre a atenção pode ser observado já com poucos dias de prática meditativa. Como resultado, ocorre também aperfeiçoamento da memória operacional, o que pode levar, por exemplo, à melhora do desempenho escolar.

Dra. Regiane Souza Neves