O Brasil enfrenta um desafio persistente na educação básica: a falta de professores suficientemente preparados para atuar, especialmente nas etapas iniciais do ensino. Essa realidade não decorre da ausência de políticas, mas da forma como a formação docente foi sendo desestruturada ao longo do tempo.
Um dos caminhos que precisa ser retomado com seriedade é o fortalecimento do curso de magistério em nível médio, estruturado como ensino técnico. Essa proposta não representa retrocesso, mas sim uma resposta prática a um problema real: a necessidade de formação antecipada, consistente e orientada para a prática docente.
Diagnóstico: formação tardia e desconectada da realidade
Atualmente, a formação de professores ocorre, em sua maioria, apenas no nível superior. Embora isso seja importante, não tem sido suficiente para garantir preparo adequado para a sala de aula.
Muitos profissionais ingressam na graduação sem uma base sólida sobre o que significa ensinar. A formação inicial, por vezes, é excessivamente teórica, distante da realidade escolar e com pouca vivência prática.
O resultado é conhecido:
• Professores inseguros no início da carreira;
• Dificuldade de aplicação de metodologias;
• Alta rotatividade nos primeiros anos de atuação;
• Impacto direto na aprendizagem dos alunos.
Esse modelo concentra a formação em uma etapa tardia, quando o desenvolvimento de habilidades pedagógicas poderia começar muito antes.
O valor estratégico do magistério no ensino médio
A retomada do magistério como ensino médio técnico permite iniciar a formação docente de forma antecipada, estruturada e progressiva.
Durante essa etapa, o estudante pode:
• Desenvolver noções fundamentais de educação;
• Compreender o processo de aprendizagem;
• Ter contato com práticas pedagógicas reais;
• Adquirir experiência supervisionada em ambiente escolar.
Essa formação inicial não substitui o ensino superior, mas o fortalece. O aluno que ingressa na graduação já possui base, vocação testada e maior clareza sobre a profissão.
Formação com prática desde o início
Uma das maiores vantagens do modelo técnico é a integração entre teoria e prática.
Ao longo do ensino médio, o estudante pode ser inserido gradualmente em atividades pedagógicas, observação de sala de aula e experiências supervisionadas. Isso reduz o distanciamento entre formação e realidade — um dos principais problemas da educação brasileira.
Ensinar é uma atividade que exige habilidade, preparo e experiência. Quanto mais cedo esse processo começa, maior a qualidade do profissional formado.
Impacto na valorização da carreira
Outro ponto relevante é o fortalecimento da identidade profissional do professor.
Quando a formação começa no ensino médio:
• Há maior clareza sobre a escolha da carreira;
• Reduz-se a evasão nos cursos de licenciatura;
• Aumenta o compromisso com a profissão;
• Fortalece-se a valorização do magistério.
Além disso, o modelo técnico amplia oportunidades para jovens que desejam ingressar mais rapidamente no mercado de trabalho, especialmente em funções de apoio educacional.
Caminho para implementação
Para que essa proposta seja eficaz, é necessário planejamento e critérios claros:
• Estruturação de cursos técnicos com foco pedagógico;
• Integração com escolas para formação prática supervisionada;
• Alinhamento com a formação superior em licenciatura;
• Definição de padrões mínimos de qualidade;
• Acompanhamento e avaliação contínua dos programas.
Sem organização, qualquer proposta perde efetividade.
A educação básica não pode depender exclusivamente de modelos que não têm conseguido entregar os resultados esperados.
Retomar o magistério como ensino técnico de nível médio não é voltar ao passado, mas corrigir um erro estrutural: o afastamento da formação prática e antecipada do professor.
Formar professores exige tempo, prática e acompanhamento. Quanto mais cedo esse processo começa, melhores são os resultados.
O Brasil precisa ampliar e qualificar seus caminhos de formação docente.
A retomada do magistério no ensino médio técnico representa uma estratégia concreta para fortalecer a base da educação, preparar melhor os futuros professores e melhorar, de forma consistente, a qualidade do ensino nas etapas iniciais.
Sem professores bem formados, não há educação de qualidade. E formar bem começa cedo.
Este é o terceiro capítulo do meu livro:
SOUZA NEVES, Regiane. A formação de professores no Brasil: A história através do tempo. Souza & Neves Edições. Clube de Autores 3ª edição. São Paulo, 2025